09 junho 2011

VICTIMLESS LEATHER


A partir da década de 90 alguns artistas começaram a trabalhar com uma arte biológica, de caráter experimental, estritamente “viva” - a bioarte - produzida em laboratórios científicos e estúdios criados pelos artistas. Esta arte tem como meio a utilização de células, proteínas, DNA, bactérias, tecido vivo, sangue e congêneres, e defende o limite da categoria no estrito tópico das “formas vivas”, usada como prática da arte, onde sua ferramenta é a biotecnologia – por exemplo, a engenharia genética e a clonagem. Além de artistas dessa nova mídia eles também podem ser vistos como cientistas.


A obra Victimless Leather, um projeto sobre a cultura de tecidos, investiga a possibilidade da produção de "couro" sem matar um animal. Três peças de vestuário em miniatura, sem costura, são tecidos vivos cultivados na galeria. Os artistas Oron Catts e Ionat Zurr estão por trás do premiado projeto do laboratório ‘SymbioticA’ (Golden Nica no Hybrid Art Prix Ars Electronica 2007), o centro de investigação biotecnológica baseado na Austrália, dedicado à investigação artística.


Oron Catts e Ionat Zurr desenvolvem tecidos vivos em estatuetas de vidro e, através de uma montagem digital podem ver diferentes tipos de células em crescimento no microscópio. Em cima do tecido conjuntivo podemos ver também o crescimento dos tecidos da pele. As cores são obtidas utilizando diferentes corantes e filtros. Em seguida vemos crescer o tecido muscular sobre bi-polímeros. Numa próxima etapa os artistas farão crescer as células musculares e neurônios ao longo de bipolímeros.

VIDEOS: ENTREVISTA COM ORON CATTS

PARTE 1



PARTE 2



A intenção desses artistas é no futuro trabalhar com o cultivo de órgãos, que é uma forma mais complexa de cultura de uma coleção de tecidos. Eles utilizam tecidos de coelhos e ratos, e preferem chamar o que estão criando de “tecidos derivados".

BIOTEKNICA: TERATOLOGICAL PROTOTYPES



Há muito que falar sobre a clonagem e a engenharia genética, mas há outros aspectos biológicos relacionados com as tecnologias que vão ser bastante dominantes no futuro. Esses artistas acreditam que um deles vai ser engenharia de tecidos, que é o uso das estruturas construídas artificialmente, em que você atribui células normalmente para substituir um defeito ou partes do corpo ferido.


O trabalho aborda as implicações morais do uso de partes de animais mortos por razões de proteção e estética, e levanta questões éticas sobre a exploração e manipulação de outros seres vivos, analisando a validade das promessas tecnológicas promovidas como uma solução para resolvê-los.

ORON CATTS'S 'VICTMLESS LEATHER'



‘Victimless Leather’ (couro sem vítimas), obra de Oron Catts e Ionat Zurr, foi parte de uma exposição do Centro Cultural FACT, em Liverpool - a ‘Sk-interfaces’, e também foi exibida na ‘Science Gallery’ - um centro de arte e ciência, público, localizado em Dublin.

A APLICAÇÃO COMERCIAL



Para a biotecnologia, fazer com que tecidos cresçam sobre placas de Petri já não é novidade, mas para a indústria da moda, a possibilidade de se apropriar dessas tecnologias, a fim de construir novos materiais, ainda é uma incógnita que vai sendo desvendada.



VIDEO: SymbioticA, ELECTRONICA FESTIVAL 2007



Para pesquisar e trabalhar essas possibilidades numa esfera mais conceitual, existe o laboratório ‘SymbioticA’, localizado na Escola de Anatomia e Biologia Humana da Universidade de Western Austrália, dedicado à pesquisa e discussão da biociência sob uma ótica artística. Mas para os cientistas/ bioartistas, o foco do projeto Victimless Leather (couro sem vítima), não é criar outro produto de consumo, e sim levantar questões sobre a exploração de outros seres vivos. “Não é o nosso papel prover as pessoas de novos produtos para suas vidas, mas de fazê-las ver nosso trabalho sobre um aspecto cultural”, afirma a dupla ao justificar o projeto. Além do casaco, Catts e Zurr desenvolveram um vestido arlequim multirracial (feito com diversos tipos de pele) com a artista francesa Orlan (veja aqui: http://noholodeck.blogspot.com/2011/04/arte-biotecnologia-orlan.html).

BIOJEWELLERY


Num âmbito mais comercial, porém integrado ao mesmo conceito, está a biojoia idealizada por Tobie Kerridge e Nikki Stott. O projeto ‘Biojewellery’ testa a produção de anéis feitos de ossos de humanos biologicamente cultivados em bioplástico. Ou seja, um casal pode criar uma aliança feita de células dos ossos de ambos, por exemplo, tirados do dente siso, tendo assim uma peça única e simbólica de sua união.

VIDEO: BIOJEWELLERY - WHAT IF...Human tissue could be used to make objects?



BIO-COUTURE


Voltando à esfera dos tecidos, o projeto ‘BioCouture’, idealizado pela pesquisadora da faculdade inglesa Central Saint Martins, Suzanne Lee, tem chamado atenção por utilizar bactérias que produzem celulose como uma forma de cultivar tecidos.

VIDEO: BIOCOUTURE DESIGNER SUZANNE LEE ON GROWING YOUR OWN CLOTHES



A técnica, aparentemente simples, é quase uma receita caseira na qual Lee mistura a bactéria com um fungo fermentador numa solução de chá doce. Ao longo de alguns dias, a bactéria forma camadas de fibras, que, quando atingem o tamanho ideal, são retiradas e secas. O resultado é um material que parece um couro papelizado meio transparente e tem a vantagem de poder continuar crescendo, bastando para isto recolocar o tecido na solução de chá doce.


Na fase atual do projeto, Lee está experimentando tingir tecidos com pigmento retirado de frutas, legumes e temperos. O processo, que começou a ser estudado em 2006 e já produziu algumas jaquetas, é altamente sustentável. O próximo passo será cultivar um vestido inteiro dentro de uma piscina de chá doce.


O projeto de Lee não só atende à preocupação ecológica que predomina em qualquer processo produtivo, mas também traz à tona outra questão recorrente ao design atual, que é a possibilidade de o consumidor fazer o próprio produto (do it yourself). Uma tendência que já é forte nas cozinhas domésticas (vide a proliferação de hortas e jardins urbanos) e que se aproxima da moda cada vez mais, especialmente devido ao momento financeiro desfavorável em que o mundo se encontra hoje.

VIDEO: SUZANNE LEE: GROW YOUR OWN CLOTHES



Links externos:
http://www.biojewellery.com/
http://www.symbiotica.uwa.edu.au/
http://www.biocouture.co.uk/
http://www.tca.uwa.edu.au/


05 junho 2011

OSCAR NIEMEYER: CASA DAS CANOAS


A Casa das Canoas (projetada em 1951 e construída em 1953) é uma das habitações individuais mais fascinantes já realizadas nesse século. O resultado final fica longe das duas casas modernistas referenciais daquela época: a Farnswourth House, de Mies van der Rohe (1946-1950), e a Glass House, de Philip Johnson (1949). Oscar Niemeyer, o arquiteto que projetou a casa, optou por uma forma orgânica e uma mágica integração entre arquitetura e ambiente natural de rocha, vegetação e água - uma indiscutível obra-prima.



A força da Casa das Canoas está, em primeiro lugar, na relação com a situação privilegiada. A vista ao mar, a presença do horizonte e o gabarito quase horizontal da Pedra de Gávea, definiram a forma da cobertura. O passeio arquitetural que o visitante tem no percurso até a casa também tem uma relação forte com o local. De carro, chega-se pelas curvas da estrada das Canoas até um ponto, em seguida uma trilha leva até a casa; o carro foi eliminado do lugar. Na caminhada, a cobertura da casa se revela como uma lâmina colocada sobre colunas finas - é uma linha continua e flutuante. Niemeyer constrói esta habitação pela ideia do “teto de forma livre” experimentado na Casa do Baile (1942), na Pampulha, com mais atenção.



A piscina ao lado da Casa das Canoas ganha mais que um significado funcional, por causa da rocha que se estende até o interior da casa. O volume da rocha une solidamente a casa ao chão, mas Niemeyer também consegue ligar o exterior e o interior da casa através da rocha. Ao redor da piscina foram colocadas esculturas do seu amigo Alfredo Ceschiatti. As ondulações elegantes dos corpos femininos se incorporam perfeitamente na arquitetura ondulante. A justaposição da lâmina de concreto, a rocha e as estátuas cria uma relação sutil entre natureza e cultura.



A casa não tem frente nem fundo: o movimento contínuo criou uma fachada de vidro com um ritmo fluente. Ao contrário de Mies van der Rohe e Philip Johnson, Niemeyer buscou para a casa um caráter ao mesmo tempo transparente e fechado. Isto se manifesta na parede fechada e ondulada de madeira, que dá intimidade e privacidade na sala de estar. Nessa parede encontra-se no lado sul uma pequena janela, colocada numa altura bem baixa, que dá vista ao mar para quem está sentado. Ao lado da janela foi colocado um desenho de Le Corbusier, com um dedicatória para Niemeyer.


O piso com os dormitórios, que foi colocado no subsolo, possui uma configuração completamente diferente em relação ao andar superior. Os dois andares são ligados por uma escada larga. Em baixo da escada localiza-se a biblioteca e uma lareira com uma abertura circular. O modo como Niemeyer formaliza a chaminé, quase invisível na vista externa, é um detalhe interessante em si e prova que ele considerou o volume da chaminé um elemento perturbador na sua composição pura.



Nas áreas coletivas, Niemeyer introduziu algumas soluções que fortalecem a fluidez dos espaços. Colocou uma parede curva no espaço das refeições, exigindo a presença de uma mesa redonda e o limite entre dentro e fora é superado pelo o piso do interior que continua nos dois terraços exteriores. Também, não tentou criar uma unidade no mobiliário, o arquiteto sempre resistiu aos interiores com objetos contemporâneos apenas. O lugar do homem precisa ser marcado por uma confiança no passado e no futuro.



A poesia e a sensualidade que Niemeyer uniu na Casa das Canoas foi a resposta mais forte dada até hoje à Glass House de Johnson. Os críticos sempre apontaram que a linha curva na obra de Niemeyer não é o resultado da referência à paisagem, mas da sua fascinação pelo corpo feminino. Assim o erotismo é considerado uma parte essencial de sua arquitetura. Fogo e água ganham um significado mais profundo que apenas o funcional. Trata se de captar a essência da vida e da morte em arquitetura.



Essa casa é a construção mais sensual, talvez a casa mais erótica que um arquiteto famoso jamais imaginou. Aqui Niemeyer mostra o que arquitetura orgânica quer dizer para ele: uma configuração muito elegante, na qual o interior e o exterior se unem em harmonia.
No ano em que Oscar Niemeyer completou 100 anos, 2007, o IPHAN decidiu pelo tombamento de 35 obras de sua autoria e entre elas a Casa das Canoas.








VISUALIZE OU BAIXE, CLICANDO AQUI, O CROQUI E A PLANTA DO PROJETO DE OSCAR NIEMEYER

01 junho 2011

BANKSY VS THE STREETS: IT’S WAR!



BANKSY vs ROBBO




A cidade de Londres foi palco de um confronto artístico de titãs, entre “writers” britânicos, que opôs um dos pioneiros da cena londrina, o auto-intitulado “Robbo”, a Banksy, célebre figura do panorama da arte urbana do Reino Unido.
No centro da discórdia esteve um dos mais recentes trabalhos de Banksy, que decidiu “reformular” um mural criado 25 anos antes por Robbo, em que este havia deixado a sua assinatura.


A peça original criada em 1985 sofreu, ao longo dos anos, diversas “ofensas” e, ironicamente, atos de vandalismo, ainda que seja acessível apenas pela água. Graffitada junto ao edifício das autoridades policiais em Camden, Londres, a remodelação alterou significativamente a peça original, o que não agradou o autor original - Robbo.
King Robbo, respondeu à provocação precisamente no dia de Natal, apagando na totalidade o mural criado por si, optando por pintar o seu nome em letras prateadas de tamanho considerável.


Quem também não apreciou a ação de Banksy foi a comunidade graffiter, considerando que o trabalho produzido por Robbo era já um marco histórico da arte urbana londrina, e que como tal deveria ter merecido maior consideração parte do artista de Bristol.
A popularidade de Banksy, que apresentou em 2009 uma exposição na sua cidade natal que contou com a presença de 300 mil visitantes parece assim sofrer um ligeiro revés.
O legal da história é a criatividade dos dois artistas.

DOCUMENTÁRIO COMPLETO: ROBBO VS BANKSY- GRAFFITI WARS - LEGENDADO




BANKSY vs BRISTOL MUSEUM



Banksy, o grafiteiro mais famoso do mundo mostrou, em 2009, a maior exposição feita por ele: “Banksy vs Bristol Museum“. O título sugestivo espelha a dualidade dos critérios, da aceitação da arte de rua, da sua natureza anti-establishment e do seu lugar dentro de um museu. A mostra aconteceu na sua terra natal, Bristol, que, há décadas, o persegue nas ruas e paga para limpar o seu trabalho.
O projeto foi marcado pelo mistério. A mídia, vereadores locais e até mesmo funcionários do museu só souberam do projeto um dia antes de ficar pronto para a abertura.




BANKSY vs PARIS HILTON



Em uma de suas obras, de 2006, o artista britânico conseguiu substituir 500 CDs de Paris Hilton por versões adulteradas em 42 lojas espalhadas pela Grã-Bretanha. Banksy trocou as músicas de Paris Hilton por versões suas, que receberam nomes como “Por que sou famosa?”, “O que fiz?” e “Para que sirvo?”.
O artista plástico também substituiu as fotos dos CD’s por imagens em que Paris Hilton aparece em topless com frases provocantes e na contra capa substituiu a fotografia da socialite, por uma fotografia em que esta aparece com uma cabeça de cadela.




BANKSY vs DISNEYLAND


Em outra obra, de 2006, Banksy conseguiu colocar uma réplica em tamanho natural de um prisioneiro da base americana na Baía de Guantánamo na Disneyland, sem que os responsáveis pelo parque percebessem. A figura, vestida com o uniforme laranja que caracteriza os presos de Guantánamo, foi colocada no fim de semana dentro da área ocupada pela atração Rocky Mountain Railroad. A réplica permaneceu no local por 90 minutos até que esta parte do parque fosse isolada para a figura ser removida. Um porta-voz de Banksy disse que a idéia era chamar atenção para a situação dos suspeitos de terrorismo presos no ignóbil centro de detenção americano em Cuba.




BANKSY vs THE MUSEUMS


Também, Banksy invade museus e mistura os seus trabalhos com o acervo das exposições. Há alguns anos ele entrou no American Museum of National History, em Nova Iorque e, discretamente, colocou um de seus quadros na parede. Demorou algum tempo para que a equipe do museu descobrisse a ação.
O mesmo já aconteceu no British Museum e Natural History, ambos em Londres, e no Brooklyn Museum em Nova Iorque.