09 março 2011

ROGER WATERS ADERE AO BOICOTE CULTURAL A ISRAEL



O fundador da banda inglesa Pink Floyd, Roger Waters, aderiu ao boicote internacional contra Israel e apela aos colegas da indústria da música e a artistas de outras áreas para aderirem também. O anúncio de adesão ao boicote cultural aconteceu neste domingo (06).
A música "Another Brick in the Wall Part 2" serviu de hino da juventude negra sul-africana contra o apartheid e mais tarde também foi cantada por jovens palestinos contra o muro que Israel construiu nos territórios ocupados.

O roqueiro disse que resolveu se juntar à campanha mundial – Global BDS Movement - Boicote, Desinvestimento e Sanções para a Palestina (http://www.bdsmovement.net/), criada por organizações pró-palestina, para pressionar Israel a cumprir as exigências já feitas pela ONU, como o fim da ocupação e colonização de todas as terras árabes, a destruição do muro que separa Israel do território palestino, o reconhecimento dos direitos dos cidadãos árabes-palestinos e a permissão para que os refugiados voltem para suas casas. “O muro é um edifício revoltante”, disse o baixista.
Leia na íntegra a carta aberta divulgada pelo músico britânico.



CARTA ABERTA DE ROGER WATERS



Em 1980, uma canção que escrevi, "Another Brick in the Wall Part 2", foi proibida pelo governo da África do Sul porque era usada por crianças negras sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma educação igual. Esse governo de apartheid impôs um bloqueio cultural, por assim dizer, sobre algumas canções, incluindo a minha.

Vinte e cinco anos mais tarde, em 2005, crianças palestinas que participavam num festival na Cisjordânia usaram a canção para protestar contra o muro do apartheid israelita. Elas cantavam: “Não precisamos da ocupação! Não precisamos do muro racista!” Nessa altura, eu não tinha ainda visto com os meus olhos aquilo sobre o que elas cantavam. Um ano mais tarde, em 2006, fui contratado para atuar em Telavive.

Palestinnos do movimento de boicote acadêmico e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar. Eu já tinha me manifestado contra o muro, mas não tinha a certeza de que um boicote cultural fosse a via certa. Os defensores palestinos de um boicote pediram-me que visitasse o território ocupado para ver o muro com os meus olhos antes de tomar uma decisão. Eu concordei.

Sob a proteção das Nações Unidas, visitei Jerusalém e Belém. Nada podia ter me preparado para aquilo que vi nesse dia. O muro é um edifício revoltante. Ele é policiado por jovens soldados israelitas que me trataram, observador casual de um outro mundo, com uma agressão cheia de desprezo. Se foi assim comigo, um estrangeiro, imaginem o que deve ser com os palestinos, com os subproletários, com os portadores de autorizações. Soube então que a minha consciência não me permitiria afastar desse muro, do destino dos palestinos que conheci, pessoas cujas vidas são esmagadas diariamente de mil e uma maneiras pela ocupação de Israel.

Em solidariedade, e de alguma forma por impotência, escrevi no muro, naquele dia: “Não precisamos do controle das idéias”.
Tomando nesse momento consciência que a minha presença num palco de Telavive iria legitimar involuntariamente a opressão que estava a testemunhar, cancelei o concerto no estádio de futebol de Telavive e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade agrícola dedicada a criar pintainhos e também, admiravelmente, à cooperação entre pessoas de crenças diferentes, onde muçulmanos, cristãos e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.

Contra todas as expectativas, ele tornou-se no maior evento musical da curta história de Israel. 60.000 fãs lutaram contra engarrafamentos de trânsito para assistir. Foi extraordinariamente comovente para mim e para a minha banda e, no fim do concerto, fui levado a exortar os jovens que ali estavam agrupados a exigirem ao seu governo que tentasse chegar à paz com os seus vizinhos e que respeitasse os direitos civis dos palestinos que vivem em Israel.
Infelizmente, nos anos que se seguiram, o governo israelita não fez nenhuma tentativa para implementar legislação que garanta aos árabes israelitas direitos civis iguais aos que têm os judeus israelitas, e o muro cresceu, inexoravelmente, anexando cada vez mais da faixa ocidental.

Aprendi nesse dia de 2006 em Belém alguma coisa do que significa viver sob ocupação, encarcerado por trás de um muro. Significa que um agricultor palestino tem de ver oliveiras centenárias ser arrancadas. Significa que um estudante palestino não pode ir para a escola porque o checkpoint está fechado. Significa que uma mulher pode dar à luz num carro, porque o soldado não a deixará passar até ao hospital que está a dez minutos de estrada. Significa que um artista palestino não pode viajar ao estrangeiro para exibir o seu trabalho ou para mostrar um filme num festival internacional.

Para a população de Gaza, fechada numa prisão virtual por trás do muro do bloqueio ilegal de Israel, significa outra série de injustiças. Significa que as crianças vão para a cama com fome, muitas delas mal nutridas cronicamente. Significa que pais e mães, impedidos de trabalhar numa economia dizimada, não têm meios de sustentar as suas famílias. Significa que estudantes universitários com bolsas para estudar no estrangeiro têm de ver uma oportunidade escapar porque não são autorizados a viajar.

Na minha opinião, o controle repugnante e draconiano que Israel exerce sobre os palestinos de Gaza cercados e os da Cisjordânia ocupada (incluindo Jerusalém oriental), assim como a sua negação dos direitos dos refugiados de regressar às suas casas em Israel, exige que as pessoas com sentido de justiça em todo o mundo apoiem os palestinos na sua resistência civil, não violenta.
Onde os governos se recusam a atuar, as pessoas devem fazê-lo, com os meios pacíficos que tiverem à sua disposição. Para alguns, isto significou juntar-se à Marcha da Liberdade de Gaza; para outros, juntar-se à flotilha humanitária que tentou levar até Gaza a muito necessitada ajuda humanitária.

Para mim, isso significa declarar a minha intenção de me manter solidário, não só com o povo da Palestina, mas também com os muitos milhares de israelitas que discordam das políticas racistas e coloniais dos seus governos, juntando-me à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel, até que este satisfaça três direitos humanos básicos exigidos na lei internacional.
1. Pondo fim à ocupação e à colonização de todas as terras árabes [ocupadas desde 1967] e desmantelando o muro;
2. Reconhecendo os direitos fundamentais dos cidadãos árabo-palestinianos de Israel em plena igualdade; e
3. Respeitando, protegendo e promovendo os direitos dos refugiados palestinos de regressar às suas casas e propriedades como estipulado na resolução 194 das NU.

A minha convicção nasceu da ideia de que todas as pessoas merecem direitos humanos básicos. A minha posição não é anti-semita. Isto não é um ataque ao povo de Israel. Isto é, no entanto, um apelo aos meus colegas da indústria da música e também a artistas de outras áreas para que se juntem ao boicote cultural.
Os artistas tiveram razão de recusar-se a actuar na estação de Sun City na África do Sul até que o apartheid caísse e que brancos e negros gozassem dos mesmos direitos. E nós temos razão de recusar atuar em Israel até que venha o dia – e esse dia virá seguramente – em que o muro da ocupação caia e os palestinos vivam ao lado dos israelitas em paz, liberdade, justiça e dignidade, que todos eles merecem.

Tradução do Comité Palestina

A POLÊMICA ENTRE JUDEUS E ROGER WATERS


Em setembro de 2010, a Anti-Difamation League(ADL) ou Liga Anti-Difamação, criticou Roger Waters pela utilização de imagens com uma clara associação dos judeus com dinheiro, em uma parte do show de abertura de sua turne mundial 2010-2011, "The Wall Live Tour", em Toronto, Canadá, que teve como objetivo criticar a barreira de separação israelense da Cisjordânia.

Durante sua performance de "Goodbye Blue Sky", uma animação projetou imagens de aviões soltando bombas em forma da Estrela de David judaica seguida por cifrões.
Roger Waters (67), um ativista declarado, sempre criticou abertamente a política de Israel nos territórios ocupados. "É uma construção horrenda, esta coisa", disse para a imprensa, já em 2006.

VIDEO: PINK FLOYD | LIVE IN TORONTO | GOODBYE BLUE SKY |



Abraham H. Foxman, Diretor Nacional da ADL, emitiu uma declaração dizendo que "é escandaloso que Roger Waters optou por utilizar a associação de uma Estrela de Davi judaica com o símbolo de cifrões. Enquanto ele insiste que sua intenção era criticar Israel pela cerca na Cisjordânia, o uso de imagens em um ambiente de concerto de rock deixa uma mensagem aberta à interpretação, o significado poderia ser facilmente confundida com um comentário sobre judeus e dinheiro."
"É claro que Waters tem todo o direito de expressar suas opiniões políticas sobre o conflito entre israelenses e palestinos através de sua música e dramaturgia. Entretanto, as imagens que ele escolheu, quando colocadas juntas na mesma seqüência, chega numa linha de anti-semitismo.

"Queremos que Waters escolha outra forma de transmitir seu ponto de vista político, sem tocar no velho conceito anti-semita, sobre os judeus e sua suposta obsessão e ganância por dinheiro," acrescentou.

WATERS NARRA CURTA-METRAGEM SOBRE “THE WALL” ISRAELITA‎


Em agosto de 2009, as Nações Unidas foram palco da première de “Walled Horizons”, curta-metragem, com 15 minutos de duração, narrado por Roger Waters, e que fala dos sofrimentos dos palestinos causados pela “barreira de segurança” que Israel ergueu para evitar a entrada de terroristas vindos da Cisjordânia.

“A razão para haver muros é sempre o medo, sejam os muros pessoais, sejam muros como este, que governos amedrontados constroem ao redor deles mesmos”, diz Waters.
“Eles são sempre a expressão de uma insegurança profundamente enraizada”, acrescenta.

VIDEO: WALLED HORIZONS – NARRADO POR ROGER WATERS

PARTE 1




PARTE 2




Israel justifica a construção do muro, que começou em 2003, com a onda de ataques terroristas que chegaram ao auge em 2002.

“Me enche de horror, o pensamento de viver em uma prisão gigantesca como esta”, declarou Waters, enquanto pichava o muro de separação em Belém com os dizeres “We don’t need no thought control” (”Não precisamos que controlem nossos pensamentos”), verso da célebre “Another Brick in The Wall”, do álbum “The Wall” de 1979.

Os organizadores do projeto afirmam que o objetivo do filme é conscientizar as pessoas em todo o mundo sobre o impacto do muro na vida dos palestinos, cinco anos após a decisão da corte internacional.

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